sábado, 5 de março de 2011

Medicina UFRJ - Macaé e Magazine de Fatos de O Globo

Fatos, fotos, fatos...

O Tabloide “O Globo” em sua revista Megazine publicou uma reportagem desconcertante nesta última terça feira. Em seu estilo habitual, o tablóide motivado por interesses, sempre há interesse na imprensa, divulga denúncias acerca do andamento da implantação do curso de medicina pela UFRJ em seu Campus de Macaé. Gostaria de divulgar o teor da entrevista que concedi ao repórter Lauro Neto do aludido veículo de informação.
Três problemas centrais foram apresentados pela reportagem, a saber: Oferecer um curso médico que em momentos bem definidos e delimitados, os alunos frequentam aulas e são avaliados junto com alunos de enfermagem e nutrição; existem poucos professores médicos na área das biociências, tais como anatomia, biologia molecular, biologia celular, histologia, embriologia, bioquímica, biofísica e fisiologia; Não há proposta de dissecção de cadáveres no curso e as aulas são realizadas com peças plastinadas (submetidas a tratamento com resina para sua conservação) ou usando peças conservadas em formol, no anatômico do Fundão.
A proposta do curso de medicina, bem como dos cursos de enfermagem e nutrição possuem uma delimitação de núcleo comum e núcleo específico. Fazem parte do núcleo comum a Biologia da Saúde e alguns aspectos da Saúde da Comunidade. Parte-se de um pressuposto de que estes conteúdos e conhecimentos de caráter teórico ou prático, pertencem aos três cursos, tal qual as disciplinas de Cálculo pertencem à engenharia, à matemática, química ou física. Não vemos alunos rebelados por fazerem cálculo, matemática, química inorgânica ou filosofia da educação juntos com companheiros de aprendizagem de outros cursos. Fica a pergunta: qual o incômodo de se estudar anatomia juntos? Onde está o problema?
São relatados alguns problemas: um primeiro referente ao desnível com que os alunos entram na formação universitária; outro alegando que o nível de complexidade dos conhecimentos a serem trabalhados pelos diferentes processos de formação são distintos. Em primeiro lugar quero colocar que a autonomia das universidades constitui-se em prerrogativa pétrea de responsabilidade pela construção curricular, que deve reportar-se às Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos em questão, em nosso caso, a medicina. Neste processo, existe um sofisticado mecanismo de elaboração e discussão, que culmina com a aprovação do currículo e suas consequências práticas e operacionais pelas câmaras altas da universidade. Não trata-se de um projeto piloto ou de um campo de testes de novas ideias, mas sim, de decisão soberana da universidade do como fazer para se atingir um objetivo concreto, qual seja um egresso formado com um perfil preciso, decido e escolhido.
O acúmulo de competências produzidas pelos ensino fundamental e médio podem estar sendo insuficientes para que alunos aprovados no vestibular ou ENEM, enfrentes com tranquilidade as demandas por tempo de estudo e articulação de conhecimentos? Até pode ser que sim, porém, creio que seja responsabilidade explícita da universidade, de seus docentes e demais servidores, bem como de todo o corpo discente, fabricar os mecanismos de superação deste problema, caso seja assumido como tal. Ao contrário, seguiríamos produzindo a monstruosa máquina de diferenciação que o sistema educacional brasileiro vem sendo com políticas de exclusão e não de inclusão.
Por outro lado, o que diferencia nossas abordagens clínicas, práticas, cuidadoras?
É o conhecimento diferenciado da anatomia, ou a aplicação prática, articulada com os conhecimentos acumulados pela ciência? Cuidamos de pessoas com corpos diferentes, ou com o mesmo corpo? Cuidamos de pessoas ou de corpos, células, estruturas moleculares?
Ou pior, estas são perguntas reais ou seria melhor perguntarmos sobre quais preconceitos estão sedimentados estas querelas? Do ponto de vista tanto acadêmico, como prático estas questões apresentam-se como relevantes. A proposta curricular não pressupõe que aprenda a ser médico da forma que se aprende a ser qualquer outro trabalhador de saúde, mas sim, aprender a ser médico, junto com outros rapazes e moças aprendendo a serem enfermeiros e nutricionistas, respeitando-se, criando um vínculo de conhecimento e de olhares práticos sobre a vida e sua defesa. A maior parte do tempo de estudo de nossos alunos será indubitavelmente dentro do núcleo específico, mas, não se produz capacidade técnica na medicina apenas com médicos, como não se faz enfermeiros apenas com enfermeiros ou nutricionistas apenas com nutricionistas. Para cuidar do outro, seja no âmbito individual, como no coletivo é necessário ampliar-se o horizonte do olhar, faz-se premente construir-se ferramentas de apropriação do concreto, com o auxílio de diversos outros campos do conhecimento, inclusive para além do da saúde ou da biologia.
Quanto a questão do preparo dos alunos para enfrentar a jornada intensa de aprendizagem, gostaria de me posicionar como que acredita que este é um problema do ente formador e não do aluno em si. Faz-se necessário refletir, desdobrar o problema para acumular compreensões e elaborar-se projetos pedagógicos que deem conta desta tarefa inclusiva. Assim, antes de desistir de uma boa formação, precisamos, eu creio, de projetos de manejo da situação, de possibilidade de se incluir persistentemente. As dificuldades dos alunos devem ser problema para os mesmos, é claro, mas fundamentalmente é problema da escola e de seus mestres. Acreditamos, em nossa proposta pedagógica, que é necessário construir permanentemente ferramentas educacionais capazes de construir sentidos, como é o caso da tutoria na medicina, que propõe através de situações problema orientar o estudo dos alunos para uma articulação das ciências biológicas com a problematização dos sofrimentos e adoecimentos em grupos pequenos com um tutor fixo. Esta ferramenta, por exemplo, foi omitida na pretensa reportagem do noticioso.
Abordando o segundo problema: poucos docentes médicos na área das ciências biológicas. Uma universidade do porte da nossa, realiza concursos para as áreas específicas com participação majoritária de professores externos à própria universidade e com reconhecimento explícito da relevância de suas competências acadêmicas. É bastante grave e desrespeitoso considerar que professores de formação não médica não estejam habilitados ao desempenho das atividades de ensino para futuros médicos. É claro que não é apenas necessário, mais do que isso, é interessante e oportuno que professores das áreas humanas sejam sociólogos ou antropólogos ou biólogos. Imaginar um curso de medicina apenas e exclusivamente com professores médicos é uma completa impossibilidade: é necessário muito mais do que médicos para se formar um médico assim como para ser um bom médico é necessário muito mais do que conhecer anatomia, clínica ou cirurgia. É imprescindível conhecer os modos de vida das pessoas, das comunidades, das diferentes culturas, dos diferentes povos que habitam nossa nação. Um médico precisa escutar, olhar, compreender. A literatura, o cinema tem a contribuir para a construção desta capacidade profissional.
Não é possível imaginar que um professor de biologia ensine clínica cirúrgica ou oncológica, a princípio, mas esta não é a questão colocada. A questão é que uma postura ético-estética de reconhecimento da necessidade da diferença é uma aposta central de nosso Projeto Político Pedagógico. Este projeto está aprovado e autorizado por uma universidade de cerca de 45.000 alunos, pelo Ministério da Educação e pelo Conselho Nacional de Saúde.
Por fim, aulas com cadáveres e peças plastinadas, modelos e formol. Omitiu O Globo a informação de que enquanto não chegaram nossas primeiras peças preparadas e plastinadas providenciamos com o apoio da FUNEMAC – Fundação Educacional de Macaé, entidade municipal que nos apoia, o transporte semanal das peças necessárias ao cumprimento do programa curricular. Foram aproximadamente 400 km viajados por semana, ou seja o município de Macaé realizou um deslocamento de algo em torno de 8.000 km para que estas atividades se dessem da melhor maneira possível. Restou ao Fundão apenas a preparação de material para aulas acerca de músculos. Temos processo em curso de aquisição de modelos, que nada mais são do que peças “copiadas” com alta tecnologia para substituição das peças cadavéricas. Hoje em dia não faz mais parte da maioria dos currículos as atividades de dissecção, mas precocemente introduzimos técnica operatória, já em curso no 4º período.
É importante frisar a complexidade do processo de formação de profissionais de nível superior e, para esta compreensão e discussão não ajuda a forma pobre em que foram colocadas as divergências. Não me proponho discutir as motivações do movimento feito pelos 25 alunos, pelo O Globo com seu magazine de factóides ou pela Defensoria Pública, mas sim os elementos e tensões constitutivas do processo de redefinição da formação médica na direção do cumprimento das Diretrizes Curriculares Nacionais.

2 comentários:

  1. Caro amigo Paulo,
    Me deixa um tanto quanto triste saber que velhas discriminações ainda povoam as nossas universidades. Mais triste ainda fico ao perceber que um tabloide do porte de "O Globo" ajuda alimentar tais discriminações.
    De uma forma simplória e até leiga, compararia a disciplina de Anatomia à Química Geral. Isto me deixa mais à vontade, pois posso falar da área que domino. Muitos de meus pares acreditam em uma Química Geral para as engenharias, outra para a farmácia, outra para os químicos, etc. Bom, me surge, então, a pergunta: "Seria Química Geral ou Química Específica?" Ao decidirmos por criar turmas exclusivas de química geral para cada curso, deveríamos trocar o nome da disciplina para Química Específica.
    A ideia de disciplinas exclusivas para cada curso não combina com o momento político atual, quando predomina a liberdade. Ela é discriminatória e fruto do período nefasto vivido em 1964, quando os idealizadores do golpe usavam de todos os artifícios possíveis e imagináveis para evitar o contato entre as cabeças pensantes das universidades.
    Não podemos deixar que matem o que há de mais saudável no campus Macaé: a convivência harmoniosa entre as várias áreas do conhecimento acadêmico. A meu ver aulas comuns entre estudantes de medicina, nutrição e enfermagem levarão à formação de profissionais mais integrados e com mais capacidade de pensar coletivamente a saúde pública brasileira.

    ResponderExcluir
  2. Paulo, li seu texto e não é possível deixar de refletir: lúcido.... Expressa as posições guerreiras de um educador que preza pelo respeito às diferenças e que sabe que não é possível construir conhecimento sem se implicar, sem lutar e cavar sonhos possíveis... Parabéns....

    ResponderExcluir