sexta-feira, 6 de abril de 2012

Alunos da Medicina da UFRJ em Macaé em Greve: ou como diria Eder Sader, novos personagens entraram na cena!

Os alunos chegaram ao limite da credulidade, diante de problemas de implantação, que apesar de esforços e mais esforços, vêm barrando ou ofuscando o futuro. O sofrimento individual do estudante vazou para a criação do sujeito coletivo que faltava, os alunos da medicina, a depressão e a angustia cedeu espaço para a potência! Esta potência é contagiosa e produziu o sentimento e o disparo de outro sujeito coletivo: o corpo docente. O professor também andava pelos cantos em seu sofrimento e falta de perspectiva, pois antes dos alunos, este pela sua experiência já imaginava o déficit de futuro. O movimento dos alunos funcionou como um dispositivo potente que nos tirou a todos de nossos lugares, da docência, da coordenação de curso, do campus e da reitoria, talvez quem sabe até dos lugares dos gestores da municipalidade.

Diante de problemas complexos, como a crise do SUS, o mercado de trabalho médico e suas configurações atuais que vêm sendo desenhadas nos últimos 40 anos, bem como a oferta e os recuos nas políticas públicas em todos os âmbitos da gestão do país, temos poucas alternativas.

Vemos em meio à crise duas posturas possíveis: 1) encarar de frente o problema e humildemente reconhecer que possuímos um déficit de análise, que não temos ferramentas analíticas suficientes e que precisamos agenciar recursos para descrever e aprofundar o problema, para assim tentar fabricar soluções que nos devolvam o status de “portar futuros viáveis” e; 2) eliminar o problema, buscar a construção de sujeitos morais atribuíveis do fracasso e simplificar a questão, onde o problema é como “se livrar” do problema e mesmo reconhecendo que existe uma crise, se mostrar perplexo pela sua aborrecedora existência.

Falando um pouco da política universitária e decisões tomadas. Não é segredo para ninguém o nível de alinhamento político que sempre demonstrei e apostei em relação ao nosso estimado Reitor. Quando eu e um bocado mais de gente apostou nessa reitoria é porque tínhamos a noção de que esta era a possibilidade e fora dela não haveria, seria já há algum tempo produzida a obstrução do futuro.

Quando assumimos a decisão de deixar a coordenação do curso de medicina, o fizemos para produzir a articulação direta entre os atores que podem produzir saída para a crise e abdicar de manter a sua contenção. Estamos, e mais precisamente falando em primeira pessoa, estou onde sempre estive: comprometido com nossos alunos, com os colegas docentes e servidores envolvidos, com a política pública de expansão e com nossa UFRJ, a qual tenho de diversas formas participado desde 1980, e manifesto que o arranjo atual constituído é insuficiente, ou seja, como estamos, com nossa estratégia de formular pequenas soluções ponto a ponto, de esperar a generosidade do tempo, a mudança na política, os possíveis compromissos futuros, um pequeno acidente histórico ou pequenos milagres.

Mais, que me desculpem os carniceiros de plantão e os profetas da simplificação, mas perdi a fé na solução dos problemas sem novas propostas, sem um novo projeto, mas quero assumir de público que vejo na estatura de nosso Reitor a possibilidade de redesenhar a capacidade analítica e de formulação e não tenho nenhum motivo para não crer que a direção da Faculdade de Medicina possa cumprir seu papel.

Porém, vejo também que o protagonismo assumido pelos alunos é uma alteridade eficaz, legítima e válida e, dada esta condição, é o dispositivo disparador da crise. Ao meu ver, esta é a oportunidade única de fabricação de uma solução que possa ser adequada e viável, seja ela qual for. Este Alter é eficaz para que nos debrucemos sobre nós mesmos e compreendamos  a nossa ineficácia até agora produzida, e com isto quero dizer que todos nós ainda não conseguimos definir com clareza o problema, independentemente dos compromissos que tenhamos.

sábado, 16 de abril de 2011

Sobre uma UFRJ Renovada e Portadora de Futuro – Projeto Macaé

Minhas Rosas

Sim, minha felicidade quer fazer feliz,
Toda felicidade quer fazer feliz!
Querem vocês colher minhas rosas?

Terão de curvar-se e esconder-se
Entre rochas e espinheiros,
E com frequência lamber os dedinhos!

Pois minha felicidade é traquinas!
Pois minha felicidade é maldosa! -
Querem mesmo colher minhas rosas?
(Nietzsche)1

Este texto não é uma tese acadêmica, não é um artigo, é uma livre manifestação da aplicação de ferramentas conceituais e leituras de nossa vida institucional, visando simplesmente contribuir para a discussão e elaboração de uma metodologia que nos permita desenhar um projeto de futuro, um projeto institucional para esta experiência por si relevante da implantação do campus de Macaé da UFRJ.
Por vezes vivemos de passado, glorificamos nossos feitos, criamos heróis, super-heróis, mitos e gostamos disto, às vezes chegamos a viver disto. Porém, diante das encruzilhadas que se nos apresentam, pode ser interessante refletirmos sobre as possibilidades de futuro que nosso passado e nosso hoje, nos apresenta. Quero buscar auxílio em Nietzsche2, alguma tragicalidade essencial que possa nos apresentar a vida mais como ela é, do que como nós compulsivamente falamos, como nós pretendemos produzi-la de forma abstrata e incompleta. Assumir uma ignorância feliz, assumir o encontro pacífico e tenso de Dionísio e Apolo em nós, no sentido do reconhecimento que não temos descrições nem soluções prontas para as questões que vem sendo-nos colocadas, nem através de nossos afetos e sentimentos, nem por nossa nossa rebuscada razão. Assumir que nossa produção de conhecimentos duros, não é suficiente e que poderíamos assumir nosso futuro numa perspectiva gaia, alegre, satisfeita e segura de nossa ignorância3
A UFRJ em seus anos recentes procurou produzir institucionalmente algumas outras possibilidades de futuro, algo que vazasse pelos furos de seus muros, que transbordasse para além de suas comportas e proteções. Lançou-se nossa universidade em um projeto importante e consistente: Macaé e Xerém.
Falando mais de Macaé que conhecemos mais do que de perto, estamos dentro!
A UFRJ expandiu suas atividades de forma intensa, após a elaboração do projeto REUNI, mas já existia presença importantíssima por estas terras, bem antes disto. Quais são as novidades oportunizadas com a consistência crescente do Projeto de Expansão?
Uma articulação forte com a municipalidade, que viabilizou uma certa alavancagem inicial, ajudou a colocar em movimento e vem ainda alavancando através dos fomentos promovidos pelos fundos públicos municipais através da FUNEMAC.
A complexidade crescente dos quadros docente, discente e de funcionários técnico administrativos e de atividades educacionais.
A cessão de novos espaços, que ainda que não resolva tudo que se espera para o longo prazo, vai mantendo possibilidades de manutenção do investimento.
Um novo recorte da gestão da vida acadêmica com a confluência do corpo docente sem as barreiras departamentais e a integração no ensino dos diversos cursos, acompanhado de ousadas propostas de reforma curricular.
Práticas de extensão abrangendo atividades junto aos serviços de saúde, educacionais e de outras naturezas, bem como com as comunidades em diversos interesses e necessidades.
Quando a Prefeitura de Macaé batizou o conjunto de prédios da Av. Dr. Aloísio, não imaginava que a complexidade não se referia aos prédios, mas sim ao que ali e nos outros sitios funcionaria. Pesquisa extensão e ensino se matriciam entre si em projetos difíceis de distinguir onde começa um dos propósitos da universidade e onde termina outro. Diria com Mario Testa, importantíssimo pensador argentino, que nosso campus vai deixando de lado uma proposta complexa e vai demandando enfrentar-se como estrutura hipercomplexa4.
Surgimento e estruturação em tempo exíguo de programas de pós-graduação além de recursos financiados pelos órgão de fomento nos três níveis de atuação.
Se existem oportunidades colocadas de forma sui generis, consistentes ao próprio projeto de expansão intrínseco ao nosso campus, grandes são os desafios do ponto de vista da formulação/reformulação permanente do projeto em si, bem como da constituição de mecanismos de gestão e manejo da atividade acadêmica ali situada.
Uma das características das unidades universitárias, hipercomplexas essencialmente, é a constituição e desconstituição permanentes de redes de trabalho, programas acadêmicos são iniciados, mantidos, reconstruídos e encerrados simultaneamente. É o que chamamos de estrutura adhocrática,do aqui e agora (sempre ad hoc). Há muito as estruturas departamentais rígidas não dão conta da gestão e do manejo,e, mesmo o arejamento dos institutos, apesar de terem aprimorado suas estruturas, passando do molde rígido, duro dos departamentos para as estruturas de “programas acadêmicos”, ainda encontra inúmeras dificuldades para uma condução prática das enormes querelas que surgem dado um funcionamento caótico associado ao processo de investigação e criação.
Uma primeira “tentação” que surge é amarrar administrativamente a condução da produção do conhecimento ou das capacidades profissionais, baixo o que seria decisão de maiorias. Delegação de poder e burocratização do manejo prático, particularmente pelo processo de estabelecimento de um regime meritocrático, tem sido suas ferramentas de gestão preponderantes. Um problema: o nível de autogoverno do próprio trabalho por parte de docentes, pesquisadores ou servidores é marcante, e, a negação de sua fluidez, característica fundamental da burocracia, não tem garantido funcionamento, pois este vaza, pelos furos-no-muro das estruturas burocráticas, porém criam-se fantasias de poder que terminam por produzir lutas intestinas com auto nível de entropia.
Um quadro resumo interessante que compara as estruturas administrativas burocráticas e adhocráticas é apresentado a seguir tal qual apresentado por Chiavenato5:
Quadro 1: Burocracia versus Adhocracia (Chiavenato, 2000 p. 620)
Práticas Administrativas
Burocracia
Adhocracia
Planejamento
  • Detalhado e abrangente
  • Situado a longo prazo
  • Envolve políticas, procedimentos, regras e regulamentos
  • Genérico e amplo
  • Situado a curto prazo
  • Envolve apenas situações rotineiras e previsíveis
Organização
  • Apenas a organização formal
  • Especialização e responsabilidades específicas
  • Departamentalização funcional
  • Centralização da autoridade
  • Algumas vezes informal
  • Responsabilidades vagamente definidas
  • Departamentalização por produto ou por cliente
  • Decentralização da autoridade
Direção
  • Diretiva e autoritária
  • Supervisão fechada
  • Autoridade estrita e impessoal
  • Centrada na tarefa
  • Participativa e democrática
  • Supervisão genérica e ampla
  • Centrada na pessoa e na tarefa
Controle
  • Controles compreensivos
  • Para assegurar cumprimento dos procedimentos
  • Acentua e reforça as regras
  • Controles genéricos
  • Orientados para resultados
  • Acentua e reforça o autocontrole
Características
  • Formal, especializado e centrado nas regras
  • Informal, baseado em equipes temporárias

Outra “tentação” é proveniente do conceito do Planejamento Estratégico, que apesar de reconhecer as forças que estão em operação, propõe-se a se estabelecer os melhores dispositivos para se vencer o “combate”. Não há como negar que o Planejamento Estratégico e suas variações funcione. Funcionar, funciona e sabemos disto, resta saber o preço que se paga ao se eliminar o outro do processo, ao se imaginar a construção com vencedores e vencidos. No dia a dia das instituições isto é verificado cotidianamente. Um dos resultados das aplicações dos planejamentos estratégicos, é a constituição de mecanismos de gestão produtores de paranoias, de desejo de poder. Passamos o tempo todo tentando controlar a ação e intenção do outro, pois a meta é vencer, é conquistar o espaço-tempo.
Uma terceira “tentação” é oriunda de uma crença romântica no Agir Comunicativo. Oriunda de uma Teoria fantástica elaborada por Jürgen Habermas, na Escola de Frankfurt, nos convida a sair de abordagens apenas instrumentais focadas nos fins, nos objetivos, para uma possibilidade de um agir baseado na escuta e comunicação buscando novas possibilidades de construção do mundo prático, do mundo da vida6. Criticado por Axel Honneth, seu sucessor na Escola, e depois assumindo com veemência, Habermas e seu sucessor assumem a existência de um deficit sociológico, que dificulta uma mediação entre mundo da vida e sistema7. Honneth desenvolve uma teoria da ação social no mundo através da “luta por Reconhecimento” e utilizando basicamente seus conceitos de desrespeito e solidariedade tentamos formular pontos que permitissem pensar uma gestão solidária, que reconhece a imprescindibilidade da diferença, do outro diferente8. O problema de um planejamento e gestão baseado apenas em um agir comunicativo se dá pela insuficiência de instrumentos concretos de construção da roda que substitui a arena, ou da praça que substitui a roda9. Importante notar que nosso cotidiano é complexamente constituído de arenas, rodas e praças.
Fica uma pergunta: é possível imaginar uma gestão baseada na solidariedade, baseada na assunção de que a posição e ideia do outro é sempre válida? Será que é possível reler como o fez Isabelle Stengers em citação de Ricardo Rodrigues Teixeira, professor da USP e ex-aluno da UFRJ, uma praticidade construída a partir do reconhecimento e valorização da diferença? Citando um pouco o diálogo de Ricardo com Isabelle:
Um belo exemplo – e que reúne alguns elementos significativos que o aproximam muito da técnica de conversa que estamos enfocando –, é a palabre, uma variante africana do parlamento e a principal instituição política da África pré-colonial. Para oferecer uma síntese eloquente das principais características dessa técnica de conversa e de seu potencial democrático, transcrevemos um comentário da filosofa Isabelle Stengers, que participou de palabres e ficou impressionada com as transformações que são produzidas pelos constrangimentos impostos aos participantes por suas regras de conversar:
Por definição, cada um dos associados de uma ‘palabre’ sabe alguma coisa da ordem do mundo que deve ser produzido, criado, descoberto, reinventado em torno do caso que os reúne. Mas jamais a intervenção de um deve assumir a forma de uma desqualificação do que diz um outro. Isso é uma regra de conversa: cada um reconhece todos os outros como legítimos e insuficientes – só há ‘palabre’ porque nenhum dos saberes presentes é suficiente para fabricar o sentido da situação. É, então, que podem se produzir as convergências. Não há apelo ao acordo entre os participantes, pois cada um é interessante enquanto divergente. Mas, pouco a pouco, palavras que não pertencem mais a uma pessoa em particular se põem a caracterizar a situação de maneira pertinente e ativa” (Mangeot et al., 2002)10.
 
Não poderíamos encontrar síntese mais adequada para o tipo de disposições “morais” e “cognitivas” que estamos prescrevendo para o acolhimento dialogado:
· o reconhecimento do outro como um legítimo outro;
· o reconhecimento de cada um como insuficiente;
·o sentido de uma situação é fabricado pelo conjunto dos saberes presentes.
Resumindo, todo mundo sabe alguma coisa e ninguém sabe tudo, e a arte da conversa não é homogeneizar os sentidos fazendo desaparecer as divergências, mas fazer emergir o sentido no ponto de convergência das diversidades11.
Estamos permanentemente entre o “príncipe de Maquiavel e a Multidão”12, como nos ensinaria e desafiaria Antônio Negri e Michel Hardt13. Entre as práticas de domínio e a construção constituinte, prerrogativa da multidão. Assumir que uma multidão está sempre a fazer-se e desfazer-se, fluindo diferenças e constituindo o comum é uma aposta de emancipação humana desromantizada, ou como afirmávamos no início do texto, tragicamente devolvidos à nossa humanidade, racional e sensível sem os dualismos que nos submetem a sistemas mentais muito reducionistas para compreendermos a realidade que se passa e se passou em nós.
Assim, ao nos assumirmos como uma unidade hipercomplexa, poríamo-nos a nos pensar como fluxos de produção de trabalho, em qualquer das dimensões da vida acadêmica. Não nos caberia mais a linearidade vertical de caixinhas de poder, submissas uma a uma, mas sim o estabelecimento da rede necessária a dar conta das decisões do aqui e agora e das pretensões de futuro.
A estrutura administrativa em matriz, é a última tentativa de se estabelecer uma boa burocracia, voltada para o funcionamento e reconhecendo as múltiplas visões e olhares que compõe uma decisão. Nela, visto que se escolhe um fator administrativo preponderante, este desloca-se da linha vertical e horizontaliza os demais planos de mando administrativo. A aplicação deste conceito na indústria tem sido útil em termos de ganhos de produtividade e eficiência, como também tem sido útil para se repensar hospitais e suas estruturas complexas. Porém, nossa semelhança com o funcionamento de hospitais ou de indústria automobilísticas é mínima. Nem temos poucas e diferenciadas linhas de produção como a indústria, nem temos apenas a produção de cuidados absolutamente díspares como os hospitais, nem temos um centro claro como os aeroportos. Somos uma rede caótica de produção, melhor definindo: temos o tempo todo, criatividade, obrigações sociais bem definidas e compromissos societários se entrelaçando, se configurando e se desconfigurando, num movimento que tende ao infinito. Vetores de forças se estabelecem e incidem sobre nossas práticas cotidianas, seja ao ensinar, ao pesquisar ou ao se estabelecer conexões com o mundo da vida para além de nossos muros. Como ordenar esta estrutura caótica? Talvez seja melhor não se ater a delírios autoritários e se deixar levar produtivamente pelo mesmo caos, pela força criativa, honestamente colocada diante de nossos sentidos.
Este talvez seja a maior aplicação do conceito de “DESADMINISTRAÇÃO”, ou seja para além de controlar, planejar, organizar, seja dado atribuir a responsabilidade aos sujeitos autônomos que efetivamente conduzem o processo de trabalho, de produção14. O que produzimos afinal? Produzimos conhecimento, capacidades técnicas específicas e soluções relevantes para problemas sociais, ou seja cidadania!
Se os sujeitos são autônomos e se organizam e se reorganizam em plataformas produtivas que visam a(s) resultante(s) do trabalho universitário, há que se reconhecer tal natureza de processo. Flua-se o processo criativo, pactuem-se os atores para o plano produtivo, confundam-se as teleologias do possível, caso contrário, não será universidade, será apenas prestação de serviços relevantes à sociedade.
Colocando um pouco melhor a questão da autonomia, e falamos aqui deste conceito basilar como capacidade de agir e pensar o agir incluindo o outro, outro concreto. Só existe autonomia ao se reconhecer o outro concreto, porém, mesmo sem uma existência autônoma poder-se-ia observar modos de operar autogovernos e, assim como entre profissionais de saúde, poderíamos observar que existe um elevado autogoverno na vida acadêmica, explicando melhor: todos temos enorme capacidade de definir por nós mesmos nosso processo de trabalho, seja nas salas de aulas, nos campos de prática, nos campos de pesquisa, nas atividades de extensão ou na condução dos processos administrativos (mesmo com todas as regras, vide as mazelas que enfrentamos nos relacionamentos com a administração central). Não podemos administrar os autogovernos, mas podemos propiciar o exercício da autonomia, que pressupõe alteridade. Pois bem, vamos nesta direção, não seria um bom caminho? Entre autônomos, não é de bom tom as linhas de mando, mas o reconhecimento da necessidade de se estabelecer mesas de negociação, claras, inequívocas, menos bastidores e mais mesas, mais rodas, mais praças de diálogos. Mais árvores da palavra. Mais reconhecimento da necessidade da diferença.
Uma das proposições centrais para o funcionamento de nosso campus é a constituição de áreas temáticas. Mas o que poderiam ser tais estruturas, ainda que fluidas? Fácil é imaginar que tais estruturas sejam os substitutivos dos departamentos ou institutos, ou simplesmente um aspecto de inovação e reorganização do esforço de pesquisa. Isto seria mais do mesmo. O desafio é repensar uma universidade no sentido que todos os esforços são potentes para redefinir os diversos campos de atuação da vida acadêmica.
Nossos esforços de constituição de, ou melhor, instituição de áreas temáticas tem sido efêmeros, agarramo-nos em cursos e laboratórios, patinamos na integração, ainda que andemos aqui e acolá para frente. A contemporaneidade vem a pedir-nos implementação de áreas complexas do conhecimento como fundante para os processos de reforma curricular e desenvolvimento de nossas linhas de pesquisa, bem como são desafiantes as questões que vão sendo suscitadas pela aproximação de nossos olhares às comunidades que nos cercam e nos interrogam. Não estamos nos séculos iluministas, prontos a levar o conhecimento aos ignorantes, estamos sim, em plena crise do saber fazer universitário, ávido por encontrar, ali, no mundo da vida as interrogações acerca de nossos fazeres nas três dimensões da vida acadêmica.
Poder-se-ia imaginar que as diversas atividades que existem no campus precisam de espaços de gestão, por exemplo: um curso de graduação pressupõe um Colegiado de Curso, talvez um Núcleo Docente Estruturante – o primeiro refere-se a gestão do ensino o segundo a uma instância consultiva para cuidar do andamento curricular; pode existir uma COAA – Comissão de Orientação Acompanhamento Acadêmico, por curso, ou não. Poderia ser por cursos ou para os cursos, mas está diretamente ligada à vida do ensino de graduação. Poderia existir um colegiado de graduação, que desprovido do agigantamento circunstancial da atualidade, colocasse coordenações de curso a elaborar estratégias de integração e desnvolvimento. No caso de programas de pós-graduação, obrigatoriamente este possui um colegiado do programa além de sua coordenação, e aqui novamente este, é na essência gestão do ensino e da formação, ainda que se interseccione fortemente com o âmbito das atividades de pesquisa. Um programa de pós-graduação pode oferecer uma ou algumas linhas de pesquisa aos seus discentes, mas não obrigatoriamente uma linha de pesquisa está submetida a um programa de pós-graduação, e, uma linha de pesquisa, como um programa de pesquisa, existe por si e é também atividade acadêmica. Programas de ensino de graduação ou pós e mesmo programas de pesquisa podem suscitar ou acolher atividades de extensão e mesmo, estas podem existir de forma a pressionar as decisões de outras esferas de programas.
Assim, colegiados de graduação ou de pós graduação podem e devem constituir espaços de gestão do ensino, como por exemplo um colegiado de graduação do campus ou um colegiado de pós graduação do campus, mas isto não substitui a necessidade de um colegiado que seja o lugar da decisão acerca da vida acadêmica, em todos os seus aspectos, sejam os de ensino, os de pesquisa, os de extensão e os administrativos e particularmente no que tange ao entrecruzamentos destes aspectos entre si. Mesmo sendo individualizáveis, estes aspectos da vida acadêmica não são atividades em si: não existe administração em si, ensino em si, pesquisa em si ou extensão em si. Estas são (grupos de) atividades da vida acadêmica com íntima e inseparável ligação entre si.
Porém, imaginar que um colegiado que é bom (adequado) para tomadas de decisão, que possua em seu âmbito os múltiplos olhares que a complexidade da vida acadêmica exige, não quer dizer que este seja também bom (adequado) para a formulação e reformulação contínua do projeto acadêmico da instituição. Me parece que aí começa a ficar claro uma das possibilidades da instituição de áreas temáticas.
O problema não é obstáculo ao desenvolvimento da ciência mas sim seu motor, e, a enunciação do problema é o início de sua solução. Destarte, problemas não são o plano de imanência da universidade, mas sim algo de consistente a´práxis universitária. Poder-se-ia dizer que problemas (ter, gerar, acatar, enunciar) são parte das tensões constitutivas da própria universidade e isto, em todos o seus aspectos e atividades. Por outro lado, a contratualidade implícita na instalação do campus da UFRJ em Macaé, pressupõe o posicionamento da empreitada como vetor apontado para o futuro e quando a UFRJ quer isto, quer sem dúvida abrir-se para os problemas que esta nova contratualidade pode formular. Uma disciplina não é em si problema, um campo do conhecimento também não. Problema é o eixo que reorganiza os conjuntos disciplinares e de núcleos de competência em esforços de revisão de projetos de pesquisa e de formação de pessoas. Assim, Áreas Temáticas seriam espaços de elaboração e formulação de problemas, bem como de fabricações de possibilidades epistêmicas de enfrentamento. Para tanto não poderiam ser instâncias decisórias, mas sim, um caldeirão em ebulição, uma permanente oficina de construção de projetos acadêmicos, influenciando via produção, a constituição de linhas de pesquisa, propostas curriculares e a práxis extensionista, além de sem dúvida, formular novos sentidos para a prática da gestão administrativa e educacional.
Quais seriam tais Áreas Temáticas?
Esta é uma bela pergunta para um Plano Diretor. Se elaboramos estas propostas a partir do que temos hoje capacidade, apontamos para o conservadorismo (quasi constitutivo) da universidade. Reorganização para construir, de forma talvez melhor, o mesmo. Porém, poder-se-ia apontar para os problemas que se nos colocam, independentemente de nossas capacidade atuais e disto, fazer-se um quadro de objetivos a perseguir. Um conjunto de perguntas poderia ajudar neste processo de formulação:
  1. Quais são os temas (problemas desafiadores para a sociedade) no âmbito mundial?
  2. Quais são os temas no âmbito dos compromissos com a sociedade no Brasil em geral e em Macaé em particular?
  3. O que podemos responder com projetos acadêmicos? Se não respondemos, o que nos impede?
  4. O que deveríamos responder (cursos, pesquisas, práticas de extensão) mas não temos capacidade para tal?
  5. Quais são as capacidades (infraestrutura, pessoas e conhecimentos, recursos financeiros, articulações institucionais) que temos e que nos faltam para podermos responder ao que nos parece contratualmente imposto?
  6. Quais seriam os elementos imperativos de um Plano Operacional que pudesse nos levar onde achamos melhor chegarmos?
  7. Como seria a melhor condução deste processo?

Assim, justamente a noção dos temas relevantes agregada à ideia de instituição de Áreas Temáticas, poderia modular um Plano Diretor, não com vista às necessidades de organização no espaço-tempo do que já fazemos, mas do que devemos fazer, não apenas organizar o agora, mas fazê-lo da perspectiva do futuro que podemos portar. Olhar para o imediato, mediato e ao médio e longo prazo, mas com organicidade consistente às tensões da vida acadêmica. Pensar a Universidade como devir Macaé, devir Rio de Janeiro, devir Brasil, devir mundo.
Desta maneira, as Áreas Temáticas estariam mais para praças como vem escrevendo Émerson Merhy, do que como arenas ou rodas de produção. Seriam intenções firmes e orgânicas de se produzir em meio a singularidades e diferenças, o comum.
Trabalhando uma operacionalidade: poderíamos propor um processo e planejamento em cinco etapas, que envolvesse toda a comunidade acadêmica, sendo uma primeira de prospecção referente às duas primeiras questões, ou seja, através de uma técnica de acumulação de visões e experiências através de conferências proferidas por pessoas preocupadas com tais dimensões e brain storm ou simplesmente um “toró de palpite” poder-se-ia elencar o conjunto temático que nos liga às questões do mundo e as particularidades do Brasil, Rio de Janeiro e Macaé, terminando por decidir o que possa parecer consensual neste temário propositivo. Poder-se-ia passar para a segunda etapa, através de grupos de trabalho, aprofundando-se o temário por grupos de questões ou com elas isoladamente avaliar o que damos conta ou não damos e, principalmente se poderíamos dar, a descrição dos problemas que nos impedem, talvez utilizando a ferramenta da construção de “árvores de problemas” e sua consequente “árvore de resultados”, tal qual no Zoop modificado por Luís Carlos de Oliveira Cecílio.
Numa terceira etapa, com um olhar sobre os resultados pretendidos e trabalhando os problemas revelados, além do processamento dos novos vetores que apontam para o futuro, e que, portanto pressupõe a construção total de projetos, recursos e capacidades, os problemas seriam detalhados, descritos, bem como deveriam ter os caminhos e solução apontados, com prazos responsabilidades e indicadores de acompanhamento. Mister produzir os mecanismos de acompanhamento de implantação do processo para não ser tal investida objeto de elaboração mental que não produza repercussão sobre as perspectivas de futuro.
Como quarta etapa, que se desenrola desde o princípio está a constituição do modo de operar, do como fazer, como conduzir o processo, como acompanhar e avaliar o andamento, que não se confunde com a gestão da vida acadêmica, mas que trata-se de esforço para projetar o Projeto Institucional, ou se preferirem,o Projeto Missional ou simplesmente Missão.
Por fim, há que se consolidar tal esforço em um documento, um enunciado, que expresse a matriz de posicionamentos dos projetos acadêmicos em todas as suas dimensões, desde a alocação de atividades em espaços, orientação missional da busca pelos quadros apropriados para consolidação do processo e priorização no tempo para não se empreender inutilmente esforços impossíveis ou inviáveis, tal qual preconizado pelo postulado de coerência de Mário Testa.
Destarte, a comunidade envolvida em um processo inclusivo, aberto, consequente e mantido, poderia produzir um conceito de expansão no tempo e com velocidade considerados possíveis e adequados, para além dos interesses justos e consideráveis dos esforços pessoais e direção ao institucional, do ponto de vista da construção do comum.
Encerrando, espero que este texto sirva para que possamos pensar sobre nossas tarefas e nossa organização e, como oferta, aceita recusas, modificações e produção de tensões que nos sirvam para tornar os nossos conflitos em produção, a partir de nossas singularidades, do que nos potencializa como comum, como multidão de diferenças em produção do comum.
Comecei este texto com Nietzsche e acho apropriado terminar com ele eem sua apresentação do A Gaia Ciência:


Vivo em minha própria casa,
Jamais imitei algo de alguém
E sempre ri de todo mestre
Que nunca riu de si também
inscrição sobre a minha porta



1NIETZSCHE F. Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 21.
2NIETZSCHE F. O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005
3NIETZSCHE F. Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001
4Testa M. Análisis de Instituciones Hipercomplejas. In:Merhy EE & Onocko R (org.). Agir em Saúde: um desafio para o público. São Paulo/ Buenos Aires, 2ª Ed. HUCITEC/Lugar Editorial,1997.
5Chiavenato I. Introdução à Teoria Geral da Administração. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, p. 620 2000.
6Habermas J. Teoría de la Acción Comunicativa I & II. 3ª Edición. Madrid: Taurus Humanidades: versión castellana de Manuel Jiménez Redondo. 2003, 1135 p.
7Honneth A . Luta por Reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. Tradução de Luiz Repa. São Paulo: Editora 34, 2003. 296 p.
8Habermas J. A inclusão do Outro: estudos de teoria política. São Paulo: Ed. Loyola, 2002
9Mendonça P. (Luta) Em Defesa da Vida: tensão e conflito, reconhecimento e desrespeito nas práticas de gestão do Sistema Único de Saúde. Dissertação de Mestrado: FM/Clínica Médica. Rio de Janeiro, 2009.

10MANGEOT et al, Apud TEIXEIRA RR. O acolhimento num serviço de saúde entendido como uma rede de conversações. In:Construção da Integralidade: cotidiano, saberes e práticas em saúde. Roseni Pinheiro e Ruben Araujo de Mattos (organizadores). IMS-UERJ/ABRASCO. Rio de Janeiro, 2003; pp.89-111
11Teixeira RR. O acolhimento num serviço de saúde entendido como uma rede de conversações. In:Construção da Integralidade: cotidiano, saberes e práticas em saúde. Roseni Pinheiro e Ruben Araujo de Mattos (organizadores). IMS-UERJ/ABRASCO. Rio de Janeiro, 2003; pp.89-111]
12NEGRI A . O Poder Constituinte: ensaios sobre as alternativas da modernidade. São Paulo. Dp&A Editora, 2002
13 Hardt M & Negri A. Multidão - guerra e democracia na era do império. Editora Record. Rio de Janeiro e São Paulo. 2005.

14MENDONÇA PEX. (Luta) Em Defesa da Vida: tensão e conflito, reconhecimento e desrespeito nas práticas de gestão do Sistema Único de Saúde. Dissertação de Mestrado: FM/Clínica Médica. Rio de Janeiro, 2009.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Medicina da UFRJ em Macaé e Produção de Cidadania


 Por Paulo Eduardo Xavier de Mendonça
Seguindo a linha de discussão das dificuldades enunciadas em relação ao processo de implantação do Curso de Medicina pela UFRJ em seu Campus de Macaé, achei conveniente realizar uma análise um pouco mais aprofundada acerca dos problemas que venho vivenciando como coordenador de curso. Diante de algumas simplificações e reduções, desejo colocar em discussão alguns outros pontos de vista, não para justificar ou remendar, mas, quem sabe, instigar um debate produtivo e denso que contribua para nossas ações e fazeres no processo relevante e delicado, que caracteriza o problema geral, qual seja, a implantação do curso de medicina com qualidade, no âmbito da singularidade deste processo.
Quero iniciar lembrando o dia, há cerca de 8 anos, que em uma reunião do Conselho de Administração do HUCFF – Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, nosso  Magnífico Reitor, Prof. Aloísio Teixeira expressou de forma veemente que a missão primordial da universidade é a produção de cidadania. Este mesmo conceito foi repetido no dia da formatura da primeira turma de Biologia, no campus de Macaé da UFRJ.
Este conceito, que é uma poderosa ferramenta, me anima a colocar em discussão algumas questões, particularmente neste momento conturbado do processo de desenvolvimento e implementação dos nossos cursos em Macaé.
Desenhando um chão possível para assentar e detalhar o problema:

1.     A expansão de vagas públicas nas universidades públicas é uma política pública do Estado Brasileiro;
2.     O acesso ampliado à universidade pública atende à projetos pessoais de nossos jovens e suas famílias ou redes de vínculos;
3.     O acesso ampliado à universidade pública atende parcialmente aos interesses da sociedade brasileira no que tange à ampliação de oferta de profissionais de nível superior nos diversos campos de atuação e núcleos de competência profissional;
4.     A instalação de um campus em Macaé atende, ainda que como aposta de futuro, às necessidades específicas deste município, ainda carente de um projeto de políticas públicas que assegurem um crescimento equilibrado entre as dimensões econômicas, políticas e sociais;
5.     A UFRJ, grande universidade pública brasileira, ainda tem capacidade parcial para compreender os desafios que se inscrevem ao adotar como própria a Política Pública de Expansão, particularmente quanto ao financiamento da empreitada e às concepções de corpo docente, graduação e pesquisa;
6.     Macaé e seus munícipes ainda não vislumbraram a potência contida no processo específico de expansão universitária que cursa em nossa cidade.

Aprendi há tempos que é praticamente impossível desenvolver um raciocínio lógico com tantas variáveis, mas, por outro lado me parece impossível desdobrar e detalhar um problema desta natureza sem um esforço de enfrentar a complexidade pertinente per si.
Em primeiro lugar, nós, docentes e servidores do Estado Brasileiro, não estamos por aqui apenas usufruindo o direito de seguir na carreira do magistério superior, conquistado através de concurso público de provas e títulos, somos em uma perspectiva fortemente apontada, lançada ao futuro, portadores do futuro, operadores das intenções e in(tensões) da sociedade brasileira através das decisões emanadas no interior do estado. Temos as obrigações simultâneas de produzir o agora e o adiante, movidos que somos pelo vetor resultante destas duas forças poderosas, aqui-agora e lá-adiante. Não há conforto possível, esta dualidade temporal remete a uma situação entre o Olimpo e o império de Hades. Por outro lado como muito bem salientou Liliana Lugarinho em sua dissertação de mestrado vivemos em uma sociedade com escassez moderada de recursos, ou seja, temos fundos públicos e privados capazes de resolver apenas parcialmente o que identificamos como necessidades. Sem esta compreensão torna-se difícil o estabelecimento ético de projetos e planos de governo.
Em segundo lugar, cabe discutir os impactos nos projetos pessoais de nossa juventude, seus sonhos e perspectivas de futuro. Busco auxílio em Zygmunt Bauman, sociólogo polonês radicado na Inglaterra. É preciso compreender um pouco dos desafios do fim da modernidade, do fim do amor e dos investimentos afetivamente duráveis. Estamos perplexos a contemplar a infelicidade contida na recusa de qualquer sofrimento ou investimento no futuro, travamos relações duráveis pelo tempo de sua valia, queremos banir da vida humana as ansiedades, a dor, a tristeza e a falta de potência. Este cenário de relações líquidas, do tempo do amor líquido, desafia-nos de maneira dramática diante da insuportabilidade da insegurança inevitável de nosso tempo pós-moderno. Desejam-se garantias como algo superior aos compromissos, dado que na sociedade da liquidez, compromissos são mercadorias, ou melhor, antimercadorias sem valor. O ensino tornado mercadoria nas prateleiras de supermercados produz a exigência de garantias, tais quais os eletrodomésticos ou carros “zero quilômetro”. Isto não se confunde com a necessidade de efetivar compromissos asseguradores de um empenho firme no sentido de se produzir processos de formação que possibilitem aos nossos jovens inserção social e aos futuros usuários de suas produções cuidadoras, vínculo e responsabilidade, apenas quero aqui apontar, como, a princípio, existe uma impossibilidade lógica de no âmbito da micropolítica da pós-modernidade produzir-se capacidade profissional baseada na construção de vínculo e responsabilidade pelo outro concreto, por um alter não abstrato. Nossos jovens não estão nas universidades apenas para darem cumprimento aos seus desejos pessoais de inclusão no restrito mercado de trabalho, estão também, em situação de corresponsabilidade com seus mestres, a produzir possibilidades de produção de cidadania.
Por vezes, como bem colocado por Amartya Sen, economista indiano e Prêmio Nobel, somos confrontados com certa “impaciência produtiva” do corpo discente, esta nos move, nos instiga a produzir saídas em relação ao que não está sendo bom e, por isto, a manifestação de ideias constitui-se a princípio em uma liberdade substantiva. Porém, esta manifestação de ideias pode também estar a demonstrar outras questões, referentes às tensões constitutivas do processo de formação. Formam-se pessoas para atender à seus direitos de cidadania, mas também para atender às necessidades de egressos dos cursos superiores com perfis definidos pela sociedade para atender às demandas do desenvolvimento em seu plano mais geral.
Seguindo o mesmo tema também neste campo, diante das dúvidas, reconhecidamente importantes, poderia ser provocado um amplo debate no interior da universidade sobre os desejos, os problemas e as possíveis soluções. Mas, neste âmbito e tempo de pós-modernidade, assistimos também ao processo contínuo e, por que não dizer, assustador de judicialização da vida e das Políticas Públicas. Diante da dúvida, da lacuna a preencher, troca-se o espinhoso e produtivo caminho da formulação do comum, pela via unilateral da medida da ação judicial. Reconheço plenamente o estado de direito, aliás esta liberdade não é apenas formal, é substantiva. Apenas acho necessária uma reflexão sobre o que tem sido a judicialização das Políticas Públicas, seja no âmbito da Saúde, da Educação, ou de qualquer outro.
É apenas parcial o atendimento que o projeto de Política Pública assentado sobre o REUNI produz. A terceira questão diz respeito a esta questão. Melhor colocando, as dimensões tanto territorial como populacional de nosso país estão a demandar mais do que estamos sendo capazes de produzir, a resposta pública não consegue ainda equacionar problemas gravíssimos de desigualdades nas ofertas de trabalhadores qualificados para o âmbito da educação, da produção da saúde ou da ampliação da infraestrutura para o crescimento consistente e perene. No caso específico da medicina, ainda temos carências específicas de profissionais de boa formação geral e mesmo de diversas especialidades que congestionam o Sistema Único de Saúde O mercado de trabalho ainda encontra-se fortemente regulado pelas corporações e seguem um vetor privado de contingenciamento, o cuidado é secundário à uma fabricação permanente de “necessidades de procedimentos”.
É imprescindível compreender esta limitação, o Brasil precisa de mais, muito mais e o alcance de políticas públicas deve ser avaliado nos médio e longo prazos, avaliações imediatistas não contribuem para o desenvolvimento do país, apenas colocam questões sobre uma falsa égide de insolubilidade. Vantagem? Nenhuma.
Em quarto lugar o projeto de expansão da UFRJ contempla Macaé de forma particular, dada a inserção da universidade na cidade, esta com seus projetos e seus dilemas.
Nosso município passa por um importante ciclo econômico, marcado pela atividade extrativista do petróleo. Este não é o primeiro ciclo econômico com produção de fundos capazes de se empreender políticas de desenvolvimento econômico e social de forma responsável. Macaé já passou pela extração de pau-brasil e atividades monocultoras de grande intensidade tais qual a cana-de-açúcar e o café. Ficou pouco do ponto de vista das possibilidades de ganhos de capacidade, bem como de intitulamentos (intitulare, entitlement  i os “pacotes básicos” que um cidadão possui para autodefinir seu estilo, seu modo de andar a vida) como novamente diria Amartya Sen, para as pessoas que estiveram e ainda estão por aqui. A pequena cidade até a década de setenta foi literalmente “atropelada” por uma atividade exploratória de intensidade crescente, no eixo central da matriz energética do país e nas tentativas de superação da dependência internacional de energia para o desenvolvimento. Com um PIB na casa dos 8 bilhões de reais em 2008 e PIB per capta em torno de R$ 42.000,00 (IBGE: PIB por municípios 2004 – 2008) ajustado a preços correntes, o município é uma demonstração das consequências da matriz de desenvolvimento desigual e de alta concentração de riquezas. Município rico, o seu povo é outra história. Apesar de existirem   vários modelos possíveis e em disputa na sociedade, não é fácil mapear quais seriam os vetores predominantes nas formulações de políticas públicas para o município, além de uma participação discreta de setores mais populares no processo.
A implantação do campus é uma conjugação de esforços da municipalidade e do projeto universitário atual da UFRJ, trazendo ainda uma visão de levar o “conhecimento” para perto dos problemas por um lado, mas por outro, ainda que mais discreto, revela também o desejo de postar a universidade na proximidade do problema e assim interrogar a produção de conhecimentos. Isto é mais claro no âmbito das áreas temáticas e linhas de pesquisa que vão se articulando no projeto. Ainda com um pouco mais de dificuldade de compreensão, a mesma dinâmica de relacionamento reformado entre universidade e sociedade, vai também permitindo formular outra concepção ético-estética sobre a formação de pessoas de nível superior.
A focalização da formação em uma cidade média contingencia a oferta de problemas de saúde, ou de outra natureza por um lado, mas o modelo altamente excludente de desenvolvimento desenhado no lugar funciona como uma amplificação da sensibilidade aos desfechos consequentes ao próprio modelo. Esta relação complexa pode produzir no encontro entre produção de capacidades e necessidades de saúde, inovações curriculares importantes, particularmente na complexificação das capacidades profissionais, tal qual é demandado no Brasil contemporâneo.
Dois passos decisivos para o projeto de implantação deste empreendimento são a decisão de situar o mesmo como uma Política de Estado, para além de uma Política de Governo no âmbito municipal, por um lado e por outro, de estabelecimento perene e incentivado como projeto universitário de longo prazo por parte da universidade. Desta produção sociopolítica podem surgir formulações eficazes de Políticas Públicas, que comprometam atores sujeitos e portadores de futuro para Macaé e sua região.
Um quinto elemento da análise diz respeito às capacidades da UFRJ em protagonizar o processo que enunciou e colocou em curso. Há o problema inicial da inserção da UFRJ no mesmo contexto geral de escassez moderada de recursos, que impõe a necessidade de planejamento apurado para enfrentamento do constrangimento constitutivo das diversas intenções e pretensões acadêmicas. Não basta apenas disputar melhor participação da universidade na distribuição de recursos oriundos dos fundos públicos federais é preciso estabelecer capacidade de negociação e decisão no que tange ao processo de distribuição interna dos recursos alocados, entre os diversos programas acadêmicos existentes.
Por outro lado, para além do financiamento, existe a questão da matriz atual que orienta a produção e manutenção do corpo docente. Poderíamos citar três tipos ideais weberianos de docente: o professor técnico que é um prático erudito, o docente preparado para ser professor e o professor cientista. Os três tipos ideais existem e estão presentes, porém a hegemonia conceitual vem migrando do primeiro para o terceiro, ultrapassado o processo de qualificação que envolveu a produção do segundo. Se esta aplicação conceitual na vida prática pode ser, apesar de algumas reservas, considerada bastante útil para a consolidação e manutenção de programas acadêmicos situados na ponta do processo, ela pode não ser tão boa ao se deparar com questões concretas de ordem prática no processo de implantação de novos campi e de novos cursos. Explicando melhor: a disponibilidade de pessoal qualificado no “padrão ouro” da UFRJ é fortemente contingenciada em algumas áreas, particularmente a medicina, onde o padrão de utilidade reconhecida socialmente refere que o “bom” profissional é aquele que passou por seis anos de graduação, permaneceu de dois a cinco anos em um programa de Residência Médica, que o conferiu um título de especialista e que já tem algum tempo de militância profissional. Interessam socialmente quantas cirurgias um cirurgião já fez, mais do que se ele é especialista, mestre ou doutor em cirurgia. A prática é imperativa. Isto quer dizer que defendo uma migração da matriz atual para a anterior? Não, o que defendo é um processo de absorção de capacidade profissional consolidada, de profissionais de boas práticas e sintonizado com os processos de inovação dos núcleos de competência profissional e, que gradualmente se vá qualificando para a docência plena (ensino, extensão e pesquisa), ou seja, qualificar dentro de um processo compatível com os desafios impostos pelo projeto de expansão, tal qual foi o esforço dos últimos trinta anos, pelo menos, da própria UFRJ. Esta definição abriria as portas para que médicos de Macaé e região se disponibilizassem para a atividade docente, inicialmente em caráter parcial e no longo prazo nos moldes hoje vigentes na universidade como um todo.
Ainda referente a este campo de problemas, vale a pena situar a proposição do currículo reformado que temos em Macaé. Gostaria de citar uma conversa com a Profª Inês Barbosa de Oliveira da Faculdade de Educação da UERJ, que questionada acerca do por que se resiste tanto aos novos currículos propostos, esta me disse que “currículo proposto é um delírio autoritário, currículo é praticado”. Quero dizer com isto que novamente temos o currículo concreto como resultante de vários vetores, principalmente os seguintes: a) a inovação “interessada” que é proposta a partir de análises realizadas pela sociedade brasileira (tal qual o que está expresso nas DCN); b) a imagem simbólica do médico, ou qualquer outro profissional, que está configurada no senso comum e que, portanto, habita os desejos e pretensões dos alunos e seus familiares e amigos; c) o conceito idealizado e prático que os profissionais tem de si mesmo e de seus núcleos de competência profissional; d) o valor atribuído aos diversos profissionais por parte da sociedade  e pelas corporações profissionais.
A sala de aula, o laboratório ou o campo de práticas é conformado por estes vetores. A pretensão de reforma curricular, com a qual concordamos plenamente, e na verdade queríamos até mais, precisa ser negociada permanentemente, pois é de forma absolutamente honesta que os envolvidos no processo se manifestam, e principalmente, praticam o currículo. A disputa micropolítica entre os diferentes projetos e modelos de formação se dá na prática e não na elaboração de documentos, simplesmente. Reformar um currículo tem como prerrequisito a existência de um movimento social interessado nisso. É na poderosa relação que se estabelece entre formador e formando, educador e educando que está a definição da imagem objetivo do trabalhador a ser formado. É lá, que é decidido em última análise, o que é importante ou não, o que é prático ou o que é especulativo.
Gerir processos educacionais pressupõe desenvolvimento de capacidade de negociação, inovação formulação coletiva de projetos institucionais.
Por fim, minha sexta questão: O olhar do outro lado, o como os munícipes percebem e quais expectativas depositam neste processo de construção do campus de Macaé. Se por um lado a implantação do NUPEM – Núcleo de Pesquisas Ecológicas de Macaé já conta com mais de duas décadas de esforços e encontra franco reconhecimento social, por outro ainda é uma relação recente este grande processo de ampliação da participação da universidade na vida da cidade.  É inequívoco que existe demanda por formação de nível superior na cidade e esta demanda qualifica-se ao receber vagas públicas, porém os cursos implantados tem grande capacidade de atração de jovens de outros lugares, o que restringe o desejo de inserção local, na outra mão, reconfigura a juventude presente na cidade. É notório que hoje uma população marcadamente de adultos jovens de maioria masculina transite pela cidade sem nela fixar residência, envolvendo-se com aspectos restritos da vida da cidade. Esta multidão de 50.000 pessoas passa por Macaé. Já os jovens inseridos no ensino universitário apresentam uma característica marcante de interação com a cidade. Os de fora e os locais encontram-se, travam relações que serão duradouras.
O que ainda é uma perspectiva mais difícil dada a urgência absoluta de sentir como cumpridas as expectativas de formação e inserção futura no mundo trabalho, é a construção de uma paciência ativa, participativa, que não use o processo de expansão simplesmente como chance de estudos, mas como ferramenta própria para o desenvolvimento socioeconômico e ambiental.
A construção desta perspectiva de longo prazo é imprescindível para que o Campus Macaé torne-se efetivamente Campus de Macaé da UFRJ. Com auxílio da filosofia crítica de Jürgen Habermas, penso que esta ideia caracterizar-se-ia por um movimento com todas as capacidades interativas, inclusive fugindo de uma lógica puramente instrumental e estratégica do uso possível, e passando a construção de um agir comunicativo e formulador das políticas públicas pertinentes à cidade e à universidade, seja no âmbito de seus curso e currículos, seja na extensão como compartilhamento de saberes e fazeres em dupla mão com as diversas organizações da cidade, ou ainda na construção de perguntas que permitam o desenvolvimento de objetos de pesquisa antenados com a produção na ponta tecnológica, mas resultante das interações da universidade com o mundo da vida.

sábado, 5 de março de 2011

Nicolelis e o Futuro da Ciência no Brasil no Vi o Mundo do Azenha

Vale a pena conferir entrevista de Nicolelis no blog do Azenha:
http://www.viomundo.com.br/entrevistas/nicolelis-e-a-comissao-da-ciencia-brasileira-estrategias-para-o-futuro.html

Medicina UFRJ - Macaé e Magazine de Fatos de O Globo

Fatos, fotos, fatos...

O Tabloide “O Globo” em sua revista Megazine publicou uma reportagem desconcertante nesta última terça feira. Em seu estilo habitual, o tablóide motivado por interesses, sempre há interesse na imprensa, divulga denúncias acerca do andamento da implantação do curso de medicina pela UFRJ em seu Campus de Macaé. Gostaria de divulgar o teor da entrevista que concedi ao repórter Lauro Neto do aludido veículo de informação.
Três problemas centrais foram apresentados pela reportagem, a saber: Oferecer um curso médico que em momentos bem definidos e delimitados, os alunos frequentam aulas e são avaliados junto com alunos de enfermagem e nutrição; existem poucos professores médicos na área das biociências, tais como anatomia, biologia molecular, biologia celular, histologia, embriologia, bioquímica, biofísica e fisiologia; Não há proposta de dissecção de cadáveres no curso e as aulas são realizadas com peças plastinadas (submetidas a tratamento com resina para sua conservação) ou usando peças conservadas em formol, no anatômico do Fundão.
A proposta do curso de medicina, bem como dos cursos de enfermagem e nutrição possuem uma delimitação de núcleo comum e núcleo específico. Fazem parte do núcleo comum a Biologia da Saúde e alguns aspectos da Saúde da Comunidade. Parte-se de um pressuposto de que estes conteúdos e conhecimentos de caráter teórico ou prático, pertencem aos três cursos, tal qual as disciplinas de Cálculo pertencem à engenharia, à matemática, química ou física. Não vemos alunos rebelados por fazerem cálculo, matemática, química inorgânica ou filosofia da educação juntos com companheiros de aprendizagem de outros cursos. Fica a pergunta: qual o incômodo de se estudar anatomia juntos? Onde está o problema?
São relatados alguns problemas: um primeiro referente ao desnível com que os alunos entram na formação universitária; outro alegando que o nível de complexidade dos conhecimentos a serem trabalhados pelos diferentes processos de formação são distintos. Em primeiro lugar quero colocar que a autonomia das universidades constitui-se em prerrogativa pétrea de responsabilidade pela construção curricular, que deve reportar-se às Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos em questão, em nosso caso, a medicina. Neste processo, existe um sofisticado mecanismo de elaboração e discussão, que culmina com a aprovação do currículo e suas consequências práticas e operacionais pelas câmaras altas da universidade. Não trata-se de um projeto piloto ou de um campo de testes de novas ideias, mas sim, de decisão soberana da universidade do como fazer para se atingir um objetivo concreto, qual seja um egresso formado com um perfil preciso, decido e escolhido.
O acúmulo de competências produzidas pelos ensino fundamental e médio podem estar sendo insuficientes para que alunos aprovados no vestibular ou ENEM, enfrentes com tranquilidade as demandas por tempo de estudo e articulação de conhecimentos? Até pode ser que sim, porém, creio que seja responsabilidade explícita da universidade, de seus docentes e demais servidores, bem como de todo o corpo discente, fabricar os mecanismos de superação deste problema, caso seja assumido como tal. Ao contrário, seguiríamos produzindo a monstruosa máquina de diferenciação que o sistema educacional brasileiro vem sendo com políticas de exclusão e não de inclusão.
Por outro lado, o que diferencia nossas abordagens clínicas, práticas, cuidadoras?
É o conhecimento diferenciado da anatomia, ou a aplicação prática, articulada com os conhecimentos acumulados pela ciência? Cuidamos de pessoas com corpos diferentes, ou com o mesmo corpo? Cuidamos de pessoas ou de corpos, células, estruturas moleculares?
Ou pior, estas são perguntas reais ou seria melhor perguntarmos sobre quais preconceitos estão sedimentados estas querelas? Do ponto de vista tanto acadêmico, como prático estas questões apresentam-se como relevantes. A proposta curricular não pressupõe que aprenda a ser médico da forma que se aprende a ser qualquer outro trabalhador de saúde, mas sim, aprender a ser médico, junto com outros rapazes e moças aprendendo a serem enfermeiros e nutricionistas, respeitando-se, criando um vínculo de conhecimento e de olhares práticos sobre a vida e sua defesa. A maior parte do tempo de estudo de nossos alunos será indubitavelmente dentro do núcleo específico, mas, não se produz capacidade técnica na medicina apenas com médicos, como não se faz enfermeiros apenas com enfermeiros ou nutricionistas apenas com nutricionistas. Para cuidar do outro, seja no âmbito individual, como no coletivo é necessário ampliar-se o horizonte do olhar, faz-se premente construir-se ferramentas de apropriação do concreto, com o auxílio de diversos outros campos do conhecimento, inclusive para além do da saúde ou da biologia.
Quanto a questão do preparo dos alunos para enfrentar a jornada intensa de aprendizagem, gostaria de me posicionar como que acredita que este é um problema do ente formador e não do aluno em si. Faz-se necessário refletir, desdobrar o problema para acumular compreensões e elaborar-se projetos pedagógicos que deem conta desta tarefa inclusiva. Assim, antes de desistir de uma boa formação, precisamos, eu creio, de projetos de manejo da situação, de possibilidade de se incluir persistentemente. As dificuldades dos alunos devem ser problema para os mesmos, é claro, mas fundamentalmente é problema da escola e de seus mestres. Acreditamos, em nossa proposta pedagógica, que é necessário construir permanentemente ferramentas educacionais capazes de construir sentidos, como é o caso da tutoria na medicina, que propõe através de situações problema orientar o estudo dos alunos para uma articulação das ciências biológicas com a problematização dos sofrimentos e adoecimentos em grupos pequenos com um tutor fixo. Esta ferramenta, por exemplo, foi omitida na pretensa reportagem do noticioso.
Abordando o segundo problema: poucos docentes médicos na área das ciências biológicas. Uma universidade do porte da nossa, realiza concursos para as áreas específicas com participação majoritária de professores externos à própria universidade e com reconhecimento explícito da relevância de suas competências acadêmicas. É bastante grave e desrespeitoso considerar que professores de formação não médica não estejam habilitados ao desempenho das atividades de ensino para futuros médicos. É claro que não é apenas necessário, mais do que isso, é interessante e oportuno que professores das áreas humanas sejam sociólogos ou antropólogos ou biólogos. Imaginar um curso de medicina apenas e exclusivamente com professores médicos é uma completa impossibilidade: é necessário muito mais do que médicos para se formar um médico assim como para ser um bom médico é necessário muito mais do que conhecer anatomia, clínica ou cirurgia. É imprescindível conhecer os modos de vida das pessoas, das comunidades, das diferentes culturas, dos diferentes povos que habitam nossa nação. Um médico precisa escutar, olhar, compreender. A literatura, o cinema tem a contribuir para a construção desta capacidade profissional.
Não é possível imaginar que um professor de biologia ensine clínica cirúrgica ou oncológica, a princípio, mas esta não é a questão colocada. A questão é que uma postura ético-estética de reconhecimento da necessidade da diferença é uma aposta central de nosso Projeto Político Pedagógico. Este projeto está aprovado e autorizado por uma universidade de cerca de 45.000 alunos, pelo Ministério da Educação e pelo Conselho Nacional de Saúde.
Por fim, aulas com cadáveres e peças plastinadas, modelos e formol. Omitiu O Globo a informação de que enquanto não chegaram nossas primeiras peças preparadas e plastinadas providenciamos com o apoio da FUNEMAC – Fundação Educacional de Macaé, entidade municipal que nos apoia, o transporte semanal das peças necessárias ao cumprimento do programa curricular. Foram aproximadamente 400 km viajados por semana, ou seja o município de Macaé realizou um deslocamento de algo em torno de 8.000 km para que estas atividades se dessem da melhor maneira possível. Restou ao Fundão apenas a preparação de material para aulas acerca de músculos. Temos processo em curso de aquisição de modelos, que nada mais são do que peças “copiadas” com alta tecnologia para substituição das peças cadavéricas. Hoje em dia não faz mais parte da maioria dos currículos as atividades de dissecção, mas precocemente introduzimos técnica operatória, já em curso no 4º período.
É importante frisar a complexidade do processo de formação de profissionais de nível superior e, para esta compreensão e discussão não ajuda a forma pobre em que foram colocadas as divergências. Não me proponho discutir as motivações do movimento feito pelos 25 alunos, pelo O Globo com seu magazine de factóides ou pela Defensoria Pública, mas sim os elementos e tensões constitutivas do processo de redefinição da formação médica na direção do cumprimento das Diretrizes Curriculares Nacionais.